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terça-feira, 10 de maio de 2016

Internet: pior a cada dia que passa


Ontem à noite, navegando pelo Facebook, eis que me deparo com o link de um vídeo, no youtube, intitulado de “legalize o porno infantil”, no qual um homem argumenta sobre o porquê de ser desnecessária a atual criminalização da pornografia infantil. E, até o momento, me arrependo amargamente de ter perdido alguns minutos preciosos para assistir ao tal vídeo.

Infelizmente, como não tenho como “desassistir” ao vídeo, então, vou relatar o que senti ao ouvir aquele homem falar, com tanta naturalidade, sobre o fato de meninas de 10/11 anos “sentirem prazer” ao serem estupradas por homens adultos, enquanto outros adultos filmam o ato. Na cabeça dele, todas essas meninas gostam e consentem com os abusos, que ele insiste em chamar de relação sexual.

Não consegui assistir todo o vídeo, mas as últimas palavras que ouvi, antes de fechar o aplicativo do youtube, me fizeram sentir medo, repugnância e nojo daquele ser, que ironicamente é considerado humano. A vontade de chorar e o desejo imediato de que aconteçam coisas horríveis com ele e com todos os que apoiam tais crimes cresceram e afloraram em mim em poucos segundos.

Enfim, além de ficar enojada com a existência e a cara de pau desse homem, me intriga o fato do youtube permitir vídeos com tal título e conteúdo explicitamente criminoso. Enquanto isso, sigamos em luta para que as penas, para quem pratica tais crimes, sejam mais severas.

sábado, 24 de outubro de 2015

Quando a internet se torna tóxica: #primeiroassédio



Não foi nada fácil estar no Facebook durante esta semana. Choveu notícia ruim, uma após a outra. Direitos das mulheres sob o próprio corpo sendo restringidos pelo Estado, crianças sendo hiperssexualizadas nas redes sociais, crianças sendo hostilizadas, homens fazendo "piadas" sobre estupro e pedofilia. Um verdadeiro show de horrores.

Foi Cunha conseguindo votar PL que é sinônimo de retrocesso no que diz respeito aos direitos das mulheres vítimas de estupro. Foi garota do MasterChef Jr sendo hiperssexualizada nas redes sociais, teve também garoto do mesmo programa tendo sua possível homossexualidade hostilizada e nenhuma pessoa é punida. E outro também foi vítima de ataques pedófilos feitos por homens e mulheres. E, no meio disso tudo, ainda teve vários homens fazendo piada da situação.

Diante da situação de assédios contra uma das participantes do MasterChef Jr, uma das integrantes do coletivo Think Olga decidiu criar a hashtag #primeiroassédio, que gerou cerca de 29 mil compartilhamentos no Twitter, com mulheres de diversas idades, que relataram como aconteceu seu primeiro assédio. Um número absurdo, porém longe da realidade, pois a realidade ainda é pior, caso analisemos a quantidade de meninas que são obrigadas a conviverem com o agressor, porque ele é o pai, irmão, tio, avô e por isso não pode expor o assédio/abuso. E ainda temos as meninas que sequer possuem acesso à internet, ou que possuem uma culpa tão internalizada que não sabem que foram vítimas.

Porém, diante de tudo o que aconteceu, as piadas foram o que mais me incomodaram. Vi vários homens relativizando os assédios e abusos, outros fazendo chacota e muitos outros atribuindo a culpa dos crimes às vítimas, tudo isso em nome do “humor”. É complicado passar por uma situação do tipo, saber que parte da família me culpou e ver que milhares de pessoas – a maioria homens – ainda têm o mesmo tipo de pensamento retrógrado e tão século XX. É triste ver cantor “famoso” esbravejando no Twitter que tudo isso não passa de uma grande brincadeira para os homens. De que a empregada dele, quando ele tinha 10, deixou que ele tocasse os seios dela. E lendo depois que o próprio cantor já foi acusado de estupro. Talvez, por isso, que pra ele seja tão engraçada toda a situação.

Crescer com um trauma desse tipo não é nada legal e muito menos engraçado. É perturbador saber e lembrar de coisas que lhe forçaram a amadurecer mais cedo do que outras garotas. É triste saber que sua mãe ainda se sente culpada por algo que ela não teve como prever, que ela nada pôde fazer para evitar. Nada disso é engraçado. Não é engraçado passar por um abuso ainda criança e ter de sofrer com assédios na rua mesmo antes de entrar na puberdade. Com 10, 11 anos, homens já me assediavam na rua e eu não sou exceção. Nós, mulheres, passamos por isso desde crianças e ainda há quem ache graça.


Por fim, eu já suportei e ainda suporto muito coisa nesta vida, mas “piada” sobre pedofilia e estupro é o cúmulo do absurdo e da falta de empatia com a dor alheia. É doloroso demais ler algo do tipo, mesmo sabendo que não foi direcionada a mim exclusivamente. Mas eu fui uma vítima, então a “piada” só funciona como um tiro, que só faz com que eu perceba que os homens, em sua maioria, ainda nos veem como algo inferior. Para a maioria deles, ainda não valemos nada.

domingo, 26 de julho de 2015

Precisamos falar sobre pedofilia



Nas últimas semanas, um dos assuntos mais comentados em páginas e grupos feministas, foi a declaração de um rapaz em que ele se assumia pedófilo. Logo em seguida, ele recebeu comentários em que as pessoas o xingavam e amaldiçoavam a sua vida. Mas, o mais interessante neste fato, foi a quantidade de pessoas em que o apoiaram e diziam apoiar a prática da pedofilia.

As pessoas que tentavam justificar o crime, diziam que esta “vontade” e “atração por crianças” não passa de um distúrbio e que se eles se tratarem, podem se curar. No entanto, poucos foram os comentários sobre as vítimas dos pedófilos. Sobre os tratamentos psiquiátricos e psicológicos aos quais nos submetem tentando achar a cura para as marcas que ficam.

Por isso, resolvi escrever sobre isso: pedofilia. Fui vítima do meu primo, quando eu tinha uns 4 ou 5 anos, e ele tinha entre 15 e 16 anos. Segundo a minha mãe, os abusos duraram cerca de um ano, até que ela e meu pai descobrissem. Ele abusava de mim e da minha irmã, que é dois anos mais nova do que eu. Por sorte, ela não carrega lembranças da época, já eu as possuo bem nítidas em minha memória. E, por mais que eu tente, elas não desaparecem. Houve épocas em que eu simplesmente apaguei tudo da minha mente, vivia como se nada disso tivesse acontecido; mas, logo depois, elas reaparecem e bem reais.

Ele nos ameaçava. E dizia que tudo não passava de brincadeiras. Que tudo aquilo era normal. Mas, curiosamente, ninguém deveria saber. Apesar das ameaças, a minha irmã, inocentemente, contou à minha mãe tudo. E neste momento a família foi dividida. Os familiares não acreditavam, diziam que tudo não passava de mentiras. Pois, crianças mentem. Mas meus pais insistiram e fomos à delegacia. Houve exames de corpo de delito e foram detectados os abusos. Houve condenação, mas não me recordo qual foi, até por que eu não entendia o que estava acontecendo direito na época.

Tive acompanhamento psicológico, pois meus pais temiam que eu não crescesse como as outras crianças. No entanto, eu cresci. Mas cresci fria e com poucas amizades. Cresci, mas sem conseguir demonstrar sentimentos e interesse na vida dos outros. Cresci, mas os traumas permaneceram. Hoje, eu entendo que a minha timidez durante a infância e a adolescência são reflexos do aconteceu comigo na infância. O que eu sou, hoje, é reflexo do aconteceu no passado. Sou uma pessoa normal de acordo com a sociedade cheia de padrões e estereótipos.

Mas as memórias que eu carrego me deixam inquieta. É complicado querer desabafar sobre isso e não ter com quem falar, pois são coisas horrendas e que nenhum ser humano normal iria gostar de ouvir. São coisas que por mais que eu tenha bons amigos e uma boa mãe, eu não posso compartilhar. São lembranças que irão morrer comigo, porque externá-las, apesar de eu saber que não foi culpa minha o que aconteceu, me provoca um sentimento de vergonha terrível.

Talvez seja daí a origem do meu feminismo, a minha ânsia por justiça, a minha vontade de mudar o mundo e salvar todas as pessoas que sofrem. Talvez seja daí a causa de eu tentar ser forte o tempo todo, mesmo chorando escondida no final do dia. Talvez...