A professora de
Telejornalismo II recomendou que a turma assistisse ao documentário Notícias de Uma Guerra Particular, para que discutíssemos em sala sobre os aspectos jornalísticos
ou não do filme. Mas, como era de se esperar, a discussão foi além das técnicas
e teorias da comunicação e levou a temas como redução da maioridade penal,
racismo, pobreza e meritocracia.
Apesar de chocada com a
quantidade de colegas que defendem a redução da maioridade penal no Brasil com
base nas notícias prontas dos grandes veículos de comunicação, tentei
entendê-los e não voar na garganta de nenhum. Mas, a discussão foi ficando mais
tensa do que já estava e aí alguém falou sobre o fato de ser negro, pobre e
favelado não influenciar em nada na vida profissional da pessoa.
Explicarei melhor:
segundo alguns colegas, nascer preto, pobre e na favela não é desculpa para não
estudar e não ter um emprego. Claro, é fácil falar quando você e nenhum parente
seu passou fome. Mas eu nasci preta, pobre e no morro. Eu tenho pais que
ficaram sem comer para que eu e minha irmã tivéssemos o que comer. Eu tenho um
pai que ia para o colégio sem comer, porque queria estudar. Eu tenho um pai que
é o único com ensino médio entres seus irmãos e primos, e é o único funcionário
público da minha família até então.
Eu tenho parentes que
tiverem de escolher entre estudar ou ir trabalhar para ter o que comer. E isso
é direito básico garantido a qualquer ser humano, mas afinal, só não estuda e
não trabalha quem não quer, não é verdade? Acho fácil uma pessoa que nunca
passou por dificuldades financeiras, no conforto da sua vida, falar sobre ser
fácil ou não a vida de quem já nasce destinado a ser marginalizado pela
sociedade, que excluí pobres e negros sem dó alguma.
Ah, vale lembrar ainda:
sou a primeira da minha família a entrar numa universidade e serei a primeira a
concluir a graduação. Não foi fácil, não é fácil e sei que não será fácil. Eu
quero mais: quero outro curso, agora numa universidade pública; quero um
mestrado; quero um doutorado e quero ser a próxima funcionária pública da minha
família.
Eu tenho histórias de “sucesso”
na família, mas a proporção é desproporcional (desculpem a redundância). Para
cada dez pessoas sem estudo, apenas uma estuda. A sociedade não é justa com os
pobres e é muito mais injusta quando o pobre é negro. Não sejamos hipócritas,
meu povo! Racismo e preconceito contra pobres existem e eles estão tão
internalizados, que passam despercebidos pela maioria de nós.
Ninguém gosta de ser
pobre. Ninguém gosta de passar fome. Ninguém gosta de não ter como presentear
os filhos ou filhas no Natal. Ninguém quer nascer pobre. Ninguém quer passar a
vida sendo pobre e morrer pobre. Desta forma, convenhamos que não é fácil
deixar de pobre, ok? Até porque, se fosse tão fácil assim, não existiriam
pobres no Brasil, não é? Basta usar a cabecinha com o cérebro lindo que Deus
deu e pensar.
Enfim, não quero
defender quem se acomoda com a vida a qual foi destinado, mas afirmar, sem
conhecimento nenhum de causa, que nascer preto e pobre não é motivo para não
estudar e não conseguir “bons empregos” ao longo da vida, eu não admito. Pois é
sim! Agora, quero ver alguém subir o morro e conhecer a vida dos pobres de
verdade. Mas, julgar é mais fácil e sempre será.
