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domingo, 19 de abril de 2015

Pobre por opção?


A professora de Telejornalismo II recomendou que a turma assistisse ao documentário Notícias de Uma Guerra Particular, para que discutíssemos em sala sobre os aspectos jornalísticos ou não do filme. Mas, como era de se esperar, a discussão foi além das técnicas e teorias da comunicação e levou a temas como redução da maioridade penal, racismo, pobreza e meritocracia.

Apesar de chocada com a quantidade de colegas que defendem a redução da maioridade penal no Brasil com base nas notícias prontas dos grandes veículos de comunicação, tentei entendê-los e não voar na garganta de nenhum. Mas, a discussão foi ficando mais tensa do que já estava e aí alguém falou sobre o fato de ser negro, pobre e favelado não influenciar em nada na vida profissional da pessoa.

Explicarei melhor: segundo alguns colegas, nascer preto, pobre e na favela não é desculpa para não estudar e não ter um emprego. Claro, é fácil falar quando você e nenhum parente seu passou fome. Mas eu nasci preta, pobre e no morro. Eu tenho pais que ficaram sem comer para que eu e minha irmã tivéssemos o que comer. Eu tenho um pai que ia para o colégio sem comer, porque queria estudar. Eu tenho um pai que é o único com ensino médio entres seus irmãos e primos, e é o único funcionário público da minha família até então.

Eu tenho parentes que tiverem de escolher entre estudar ou ir trabalhar para ter o que comer. E isso é direito básico garantido a qualquer ser humano, mas afinal, só não estuda e não trabalha quem não quer, não é verdade? Acho fácil uma pessoa que nunca passou por dificuldades financeiras, no conforto da sua vida, falar sobre ser fácil ou não a vida de quem já nasce destinado a ser marginalizado pela sociedade, que excluí pobres e negros sem dó alguma.

Ah, vale lembrar ainda: sou a primeira da minha família a entrar numa universidade e serei a primeira a concluir a graduação. Não foi fácil, não é fácil e sei que não será fácil. Eu quero mais: quero outro curso, agora numa universidade pública; quero um mestrado; quero um doutorado e quero ser a próxima funcionária pública da minha família.

Eu tenho histórias de “sucesso” na família, mas a proporção é desproporcional (desculpem a redundância). Para cada dez pessoas sem estudo, apenas uma estuda. A sociedade não é justa com os pobres e é muito mais injusta quando o pobre é negro. Não sejamos hipócritas, meu povo! Racismo e preconceito contra pobres existem e eles estão tão internalizados, que passam despercebidos pela maioria de nós.

Ninguém gosta de ser pobre. Ninguém gosta de passar fome. Ninguém gosta de não ter como presentear os filhos ou filhas no Natal. Ninguém quer nascer pobre. Ninguém quer passar a vida sendo pobre e morrer pobre. Desta forma, convenhamos que não é fácil deixar de pobre, ok? Até porque, se fosse tão fácil assim, não existiriam pobres no Brasil, não é? Basta usar a cabecinha com o cérebro lindo que Deus deu e pensar.


Enfim, não quero defender quem se acomoda com a vida a qual foi destinado, mas afirmar, sem conhecimento nenhum de causa, que nascer preto e pobre não é motivo para não estudar e não conseguir “bons empregos” ao longo da vida, eu não admito. Pois é sim! Agora, quero ver alguém subir o morro e conhecer a vida dos pobres de verdade. Mas, julgar é mais fácil e sempre será.